terça-feira, 31 de maio de 2011

DESFORMAS

Centro de Estudos Desmanche e Formação de Sistemas Simbólicos

CONVOCATÓRIA

(até 20.JUN - 12h)

Plataformas de Seminários (2º semestre 2011-2012)

a) CULTURA DO DESMANCHE

b) DRAMATURGIA ÉPICA: TEORIA, CRÍTICA, PRÁTICA ARTÍSTICA E PROCESSO HISTÓRICO

c) OVOS DE SERPENTE


envio de propostas para desformas@gmail.com

CONVITE AOS MEMBROS DO CENTRO DESFORMAS

Prezados membros,

1. encontram-se abertas, de acordo com as resoluções tomadas nas reuniões de 08 e 29.04.2011, nos termos dos três programas temáticos anexos, de hoje até às 14:00 horas de 13 de junho, as inscrições de propostas de trabalho para apresentação nas três plataformas dos seminários DESFORMAS, cujas sessões se iniciarão, segundo se prevê, na primeira quinzena de agosto. A apresentação de propostas é facultada a todos os membros do Centro DESFORMAS. Por iniciativa do comitê científico do seminário, aprovada pela maioria dos seus membros, convites especiais, para apresentação de propostas, podem ser dirigidos a não-membros.

2. os formatos das palestras obedecerão aos mesmos modelos adotados nos seminários anteriores, a saber, uma primeira secção, compreendendo 30 min. para a exposição, seguida de mais 10 min., para debate; e uma segunda secção, com 1h30, para a exposição, e mais 30 min., para debate.

3. é facultada a apresentação simultânea de propostas, cujos resumos devem conter no máximo até 2.000 caracteres (com espaços), para as três plataformas.

4. no ato da inscrição, que deve ser feita pelo endereço do blog: desformas@gmail.com, é necessário que cada candidato faça acompanhar a sua proposta de um curriculum-vitae resumido, relativo aos últimos cinco anos de trabalho, e de no máximo 3 páginas (de preferência, conforme o modelo da súmula curricular adotado pela FAPESP).

5. pede-se a cada propositor que indique o padrão preferencial de duração do seu trabalho, de 30 ou 90 minutos. De todo modo, caberá ao comitê científico organizador a decisão final a respeito do destino de cada proposta, bem como a faculdade de aceitar com ressalvas, propondo modificações, ou de recusar as propostas recebidas.

6. as sessões dos seminários, salvo decisão em contrário, provavelmente ocorrerão nas sextas-feiras, a partir das 14h30.

03.05.11

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a) CULTURA DO DESMANCHE


Como caracterizar criticamente a cultura contemporânea?

Por “crítica” entenda-se o foco analítico inspirado no marxismo e na dialética materialista, que busca dar sentido processual e histórico às manifestações da cultura. Por “cultura contemporânea” entenda-se qualquer manifestação do campo simbólico a partir da idéia do “desmanche” (das instituições, das “grandes narrativas”, do modernismo ou da modernidade, do pensamento e da ação de esquerda, as relações com o mercado ou com a Indústria Cultural e seus condicionantes e mutações recentes).

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b) DRAMATURGIA ÉPICA: TEORIA, CRÍTICA, PRÁTICA ARTÍSTICA E PROCESSO HISTÓRICO


Em seu conhecido ensaio sobre Brecht, Walter Benjamin aponta a característica central da dramaturgia épica: “Pode acontecer assim, mas também pode acontecer outra coisa, completamente diferente – essa seria a atitude básica de quem escreve para o teatro épico. Ele se relaciona com sua história como o professor de balé com sua aluna. Sua primeira preocupação é flexibilizar as articulações da discípula até os limites do possível.” Diante da vitória contemporânea do neo-liberalismo e da “naturalização” das leis do mercado, a dramaturgia épica permanece um instrumento útil no exercício de nossa imaginação histórica, de nossa capacidade coletiva de imaginar outros mundos possíveis.

Num momento em que grande parte da produção teatral flerta abertamente com o universo do show business e em que 90% da distribuição mundial de filmes está na mão da quatro grandes corporações, a dramaturgia épica procura, assim, o alargamento do cardápio restrito do drama burguês, cujas interdições formais e temáticas até hoje dão régua e compasso para as práticas mais regressivas da indústria cultural. Esse seminário propõe a discussão de diversas práticas artísticas em vários campos – literatura, música, teatro e cinema – em que as teorias do épico sejam determinantes e produtivas de um ponto de vista formal e político. Algumas das abordagens possíveis são:

1. As diversas modalidades da cena épica anteriores a Brecht, desde o teatro grego até a dramaturgia naturalista, tomando como ponto de partida, entre outras obras, as pistas de Anatol Rosenfeld em O teatro épico.

2. A obra artística e crítica de Brecht, seu papel na discussão do contexto histórico europeu a partir dos anos 20, sua recepção e atualidade em diversos contextos nacionais específicos.

3. As relações entre a teoria teatral do épico e as outras artes (artes visuais, música, cinema, literatura).

4. O debate sobre o épico envolvendo, entre outros, Brecht, Lukács, Adorno e Benjamin. As diversas variações nacionais desse debate, inclusive no Brasil.

5. As diversas tradições de arte política em contextos nacionais específicos e suas relações diretas ou indiretas com a teoria do épico.

6. A discussão sobre o movimento dos grupos de teatro no Brasil e sua relação com a dramaturgia épica.

7. A partir da hipótese de que a realização plena da cena épica só pode se realizar através da transformação das relações de produção que envolvem artistas, técnicos e público, a descrição e análise de experiências no campo das práticas de trabalho e seu confronto com as regras da indústria cultural.

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c) OVOS DE SERPENTE


As imagens do fascismo e do nazismo extensamente difundidas, pela indústria cultural, enfatizam seu aspecto bélico externo. Porém, a guerra entre nações não corresponde a um elemento necessário e estrutural do fascismo, mas a traços apenas contingentes e circunstanciais. Dá-se mediante a ênfase generalizada nos particularismos do fascismo, mediante os aspectos do nacionalismo, do militarismo e do racismo, de fato, uma operação de encobrimento a fim de caracterizar o fascismo como situação de exceção e dissimular seu sentido interno e sua face natural, que o permitem reproduzir-se no cotidiano social e sob olhar geral, aparentemente sem qualquer periculosidade. Já Fellini, na contramão de tal visão, ao efetuar a reencenação paródica do fascismo em I Clowns (1970), Roma (1971) e Amarcord (1973) com intuito de desmascarar o seu ressurgimento no pós 68 –, afirmava que o fascismo apresentava “a naturalidade do pão e do queijo italianos”.

Observado em seu processo efetivo de surgimento, como fenômeno embrionário congênito às sociedades duais e em crise, e em sua maturação, tanto na forma histórica quanto talvez na mutação atual, conforme adiante, o fascismo apresenta principalmente a feição de um processo de modernização acelerada, com fortes sinais de estetização ou de estilização e renovação da vida social. Nestes termos, reclama a reorganização ampla da sociedade, mediante metas funcionalmente higienistas, eugenistas, mas, antes de mais nada, individualistas e anti-operárias. Em tais planos, cultura e arte sempre exerceram funções chave, servindo para canalizar expectativas e energias de mudança de acordo com projetos fascistas, e colaborar com programas culturais e ações em sentido estrategicamente oposto ao movimento operário revolucionário.

O seminário tem interesse no exame de casos e estratégias de ascensão dos fascismos em diferentes circunstâncias históricas. Neste sentido, poderá abranger propostas de análise de variados casos do passado, examinando-lhes circunstâncias e modos e, podendo incluir, por exemplo, reflexões sobre processos de modernização acelerada, como aqueles verificados na Russia czarista pós-1905, na Itália mussoliniana a partir da marcha sobre Roma de 1922, nas formas da ascensão do bonapartismo stalinista, no capítulo nazista e naquele franquista, etc., sem esquecer das modernizações e dos bonapartismos periféricos; ou, de outro lado, também acolherá propostas visando à discussão de perspectivas críticas e conceitos, concebidos especificamente contra o crescimento dos fascismos no I pós-guerra (1914-1918), como os de revolução permanente (Trotsky), totemismo (Freud), revolução passiva (Gramsci), etc.

Entretanto, ao lado do interesse em analisar casos históricos de tramas e complôs fascistas, ou ainda de refletir sobre estratégias críticas anti-fascistas de modo geral, o seminário terá por objetivo principal analisar e refletir sobre as relações contemporâneas entre desregulamentação e cultura, a partir da hipótese da substituição atual do viés militarista do fascismo original pelo empreendedorismo, como elemento central da estratégia de ascensão da mutação contemporânea do fascismo, que, segundo a hipótese, surge especificamente centrado, hoje, em estratégias empresariais de privatização dos serviços públicos, e de pedagogia extensa - incluindo os programas de uma rede capilar de institutos, centros de difusão e voluntariado e ações culturais -, em favor da cultura empresarial, sob cuja denominação apresentam-se ora recicladas as novas metas higienistas, eugenistas, anti-políticas, e os programas pró-individualistas ou ainda pseudo-cooperativistas, mas sempre difundindo a lógica do empreendedorismo.

Em suma, o seminário supõe, por hipótese, que o programa econômico dito neoliberal constitua apenas a porção visível de um iceberg que, muito além de exprimir um rearranjo das relações produtivas suscitado pela dinâmica econômico-tecnológica, decorre, na sua raiz, de estratégias efetivamente concebidas no âmbito da guerra social de classes. Deste modo, o alegado programa neoliberal embutiria uma estratégia política de apropriação dos fundos públicos ou estatais, outrora destinados aos serviços públicos e aos benefícios próprios ao estado de bem-estar, assim como o desígnio político de impor, além de uma agenda econômica privatizante, a desqualificação extensa do trabalho e uma perspectiva histórica marcadamente anti-operária, visando à longa duração. Neste sentido, o seminário pretende propor a prospecção histórica do processo político todavia oculto, que antecede a aplicação do programa econômico neoliberal, bem como uma reflexão específica acerca das conseqüências decorrentes da ofensiva anti-operária no plano histórico e político.

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