domingo, 19 de setembro de 2010

PRECARIZAÇÃO, APARTHEID E DESMANCHE
01/10/2010

¬ 14:30 – Luiz Renato Martins
Sala 100 - FFLCH (Conjunto C.Sociais-Filosofia)

Pampulha e Brasília ou as longas
raízes do formalismo no Brasil


Em Oscar Niemeyer: forma arquitetônica e cidade no Brasil moderno (tese de doutoramento, DF-FFLCH – USP, 2002), Luiz Recamán traz à luz o caráter fundamentalmente anti-urbano do processo formativo do sistema da arquitetura moderna brasileira.

Apoiada nesta interpretação (que parte da análise dos projetos iniciais, do Pavilhão do Brasil na Feira de Nova York de 1940 - feito a quatro mãos, por Lúcio Costa e Oscar Niemeyer -, e do projeto do conjunto da Pampulha, por Niemeyer, logo a seguir), a palestra procurará indicar que o trabalho de Recamán vem comprovar com força demonstrativa, e rara agudeza analítica e perspicácia reflexiva na leitura crítica do processo da arquitetura moderna brasileira, alguns diagnósticos sobre a formação social do país elaborados em Raízes do Brasil (1936) de Sérgio Buarque de Holanda, e na obra subseqüente, de Caio Prado Jr.: Formação do Brasil Contemporâneo (1942)

De fato, Raízes do Brasil assinalara que o "talento", ou a destreza no manejo das formas, “parecia brotar (...) de uma qualidade inata, como seria a fidalguia”, segundo ressaltou Antonio Candido em seu prefácio de 1967 a uma reedição do livro.

Mais que aproximação passageira, a comparação do prefaciador, com a precisão de uma forma sintética para ficar na memória coletiva, chama a atenção para um achado precursor e crucial de Raízes do Brasil: a destreza e o talento no manejo das formas - ou aquilo que a esta altura, com visão retrospectiva e acumulação crítica, já se pode denominar de a propensão brasileira ao formalismo -, têm o seu atavismo constituído na longa preponderância do latifúndio escravista na Colônia, bem como no país dos herdeiros, baseado ainda em tal forma ou na sua atualização, na forma do trabalho precário.

Da aversão, decorrente de tal matriz, ao trabalho material e das atividades intelectuais a este ligadas, e daí, ainda, ao vigor da nossa “forma livre”, resultante da combinação entre a “liberdade total” do arquiteto e o primado do desígnio do dono da terra, tem-se só dois passos e nestes a predominância de uma nota só.

Vista desde a perspectiva crítica que a palestra irá propor, com base nos diagnósticos que Raízes do Brasil constrói e a tese de Recamán explicita e verifica na análise arquitetônica, a chamada “Cidade Nova” delineia-se segundo traços da unidade senhorial rural, de acordo com a imaginária anti-urbana de uma utopia colonial.
PRECARIZAÇÃO, APARTHEID E DESMANCHE
01/10/2010

– Mara Onijá
CANCELADO

"Da abolição ao trabalho:
a questão negra no Brasil"


O processo histórico que envolve a abolição da escravidão no Brasil e a transição ao trabalho assalariado apresenta elementos fundamentais para a compreensão da formação econômica e social do país. A lenta e gradual abolição da escravidão não tinha por objetivo destruir as desigualdades econômicas e sociais entre brancos e negros, construídas historicamente. Ao contrário, vinculou-se a um projeto de industrialização do país que relegava os negros aos serviços mais precários, quando não diretamente ao desemprego. Dessa forma, faz-se necessário compreender a relação que se estabelece entre racismo e as relações de trabalho estabelecidas no marco da sociedade capitalista desde o fim do século XIX até os dias atuais
CULTURA DO DESMANCHE

¬ 15:10 – Rubens Machado Jr.
Sala 100 - FFLCH (Conjunto C.Sociais-Filosofia)

Mito, Acaso e o Inferno de Wall Street
num quase-filme de Hélio Oiticica


É preciso analisar, isto é, descrever, decompor, e interpretar Agrippina é Roma-Manhattan, único filme de Hélio Oiticica. Mas que elenco de comentários seria imprescindível para o seu debate contemporâneo? Filme considerado inconcluso, feito em Nova York em1972, tem sido mostrado desde então em inúmeras circunstâncias. Ou, pelo menos desde 1992, ano da primeira retrospectiva internacional do artista, na Galeria Nacional do Jeu de Paume, em Paris.

Agrippina pode ser também pensado como um filme Super-8 ―concluído‖, contemplada a natureza do suporte que esta bitola adquiriu entre artistas e cineastas experimentais e/ou amadores, mas também em virtude de alguns desígnios pertinentes à trajetória do artista entre os anos 60 e 70, bem como naqueles anos de trabalho vividos nos Estados Unidos. Este filme de Oiticica reúne características que podem mesmo ser descritas como um prolongamento das experiências não só do Cinema Marginal como do próprio Cinema Novo. Curiosamente, ele também antecipa características outras, distintas daquele cinema, e que seriam desenvolvidas especificamente pela produção experimental superoitista brasileira durante os anos 70 e início dos 80. O caráter contemporâneo que desejamos abordar em nossa análise desse filme coloca em termos distintos a distinção entre formação e desmanche que se desenhavam em alguns dos nossos seminários anteriores, ou no mínimo indicaria limites gnosiológicos implicados naqueles parâmetros.
CULTURA DO DESMANCHE
17/09/2010

¬ 14:30 – Gustavo Motta
Sala 100 - FFLCH (Conjunto C.Sociais-Filosofia)


Cultura e Política 1969-1974; Schwarz e Oiticica

No texto Cultura e Política 1964-1969 Alguns Esquemas (Les Temps Modernes, 1971), Roberto Schwarz faz uma avaliação crítica do período que viu florescer – tardia e surpreendentemente, em meio à ditadura militar – uma cultura de esquerda politicamente interessada e multidisciplinar (o crítico faz menção à literatura, à música popular, ao teatro, à cultura editorial universitária, etc.). Segundo o crítico, este amadurecimento, ―fruto de dois decênios de democratização, ligado à primavera nacional-desenvolvimentista do pré-64, se deu no momento em que as condições para sua existência social mais ampla já não existiam. No calor da hora (1971), R. Schwarz realiza um panorama crítico sobre as ambigüidades do processo cultural em movimento em sua relação com o processo social impedido – em parte, diante do diagnóstico de que em 1969 (e com o AI-5) este ciclo esquerdizante da cultura brasileira sofria uma inflexão.

Dois anos mais tarde, no texto Brasil Diarréia (1973), o artista plástico Hélio Oiticica aborda a cultura brasileira (com foco nas artes plásticas, praticamente ausentes do texto de Schwarz) no pós-AI5, aludindo à mesma problemática da ambigüidade dos processos artísticos – formulando dialeticamente a situação particular brasileira (periférica), no contexto mais amplo, ― universal – desigual e combinado. A leitura de Oiticica investe em duas hipóteses mutuamente imbricadas: 1) de um lado, de maneira otimista, formula uma leitura crítica da ambivalência congênita à cultura, com vistas à conceitualização do que ele chama o experimental – que consistiria num movimento de supressão da arte experimental, no qual o campo cultural seria um laboratório para a experiência social mais ampla (que configuraria o experimental com uma concepção libertária e crítica da sociedade); 2) de outro lado, H.O. aponta, em chave pessimista, as conseqüências já visíveis da não realização social ampla do experimental, nas imagens conceituais da conservação-diluição e da diarréia, duplos da convi-conivência (doença típica brasileira): a falta de caráter global da sociedade. Aludindo ao vocabulário de época referente à teoria da formação, Oiticica chega a formular a hipótese de uma formação diarréica brasileira.

Seguindo indicações do texto De Opinião 65 à XVIII Bienal (1986) de Otília Arantes, a conferência procurará contextualizar a origem da consciência crítica apresentada de modo análogo nos textos de Schwarz e Oiticica na cultura esquerdizante dos anos 1964-69 descrita pelo primeiro. Também procurará contextualizar a dinâmica político-cultural (diluída) na qual ambos os textos se inserem no período 1969-74, procurando assinalar a inflexão sofrida pelo ideário da formação nacional no período.

Estancamento do ciclo cultural esquerdizante em 1969 (R.Schwarz) e formação diarréica (H.Oiticica): prefigurações do desmanche global que se seguirá?
PRECARIZAÇÃO, APARTHEID E DESMANCHE
03/09/2010


¬ 14:30 – Grupo de Teatro Engenho
Sala 100 - FFLCH (Conjunto C.Sociais-Filosofia)

Pedaços


Como grupo de teatro, o Engenho não propõe nenhuma intervenção teórica sobre o assunto. Pretende apresentar, em cerca de meia hora, algumas cenas curtas e independentes que vem criando e apresentando em encontros, reuniões, debates, sempre em locais pequenos e fechados, para pouca gente, espectadores interessados, mas que podem chegar a até 200 pessoas, dependendo do local.

Essa pesquisa estética – Teatro de Bolso – de dramaturgia, interpretação e cena a partir do teatro épico e da comédia popular, coloca os atores em relação direta com o público, sem a necessidade de luz, som, cenário, etc. São intervenções pautadas, num primeiro momento, pela ‘periferia’, que não se define ‘em si’ mas na relação com um ‘centro’. Mais recentemente, a questão passou a ser o ‘indivíduo’ em relação com a sociedade, o ‘eu’ e o coletivo, sob o mote “o impossível meu, maior que o impensável nós”.

O que se percebe nas cenas – e isso não é exclusividade do Engenho, mas uma característica comum de parte significativa do teatro de grupo de São Paulo – é uma poética do desmanche. Sem prévia combinação, parece que os grupos fazem o inventário estético e a denúncia política das contradições, impasses e becos em que o capitalismo atola a humanidade. Ressalta a barbárie e uma cegueira geral, se é que se pode usar este termo: os grupos não enxergam e não teatralizam a superação dessa situação, apenas registram o pântano, Engenho incluído.

Como entender a contundência da denúncia e a falta de perspectivas postas nas cenas? Como entender um movimento totalmente a contrapelo, que leva artistas de teatro a se organizarem coletivamente para controlar seus espetáculos e seu meio de produção – espaço físico, equipamentos – em contraposição à venda de sua força de trabalho no mercado da produção cultural? E que, ao mesmo tempo, não gera valor econômico e torna seus protagonistas dependentes da verba pública?